Agosto 3, 2009, 6:52 pm
Arquivado em: consuelo abreu, fotografia | Tags:

19 de agosto – dia Mundial da Fotografia

Da Profissão de Fotógrafo e seus Envolvimentos

O fotógrafo é, antes de tudo, um ser incômodo.

Talvez porque as pessoas lhe atribuam uma capacidade mágica e reveladora, por isso mesmo indesejável.

Tratado como um inconveniente que se apropria de pedaços de vidas alheias é, também, olhado como alguém capaz de congelar momentos felizes ou reter belezas que, por um instante fugaz, iluminaram faces opacas ou lugares banais.

Rejeitado, aceito; abominado ao mesmo tempo que necessário; empurrado pela polícia, cortejado pelos poderosos que tentam traficar uma imagem generosa; o fotógrafo transita, o tempo todo, em um emaranhado de ambigüidades.

Quando anda pelo mundo em busca de objetos de denúncia, como opressão, miséria, guerras ou qualquer coisa dessa natureza, é tratada como se fosse um aproveitador dessas ocorrências e, de algum modo, seu estimulador pela divulgação que lhes dá.

Essa culpa lhe é imputada porque as pessoas prefeririam ignorar a existência desses fatos, pois sentem-se cúmplices por força de sua indiferença.

Mas o fotógrafo não é um abutre da história, apenas mostra pessoas e personagens, habitantes de um universo confuso e hipócrita. Ele assumiu um compromisso de legar referências ao futuro, mesmo que incompletas e fragmentadas.

É necessário acreditar-se na existência de justos, capazes de entregar suas vidas ao serviço de causas que consideram dignas.

Nenhuma profissão é um agrupamento de santos ou um valhacouto de canalhas, mas a existência de um único puro, crente fervoroso da seriedade e importância de seu trabalho, redime e faz respeitável a profissão.

A atitude de fotógrafo que se dedica a fotografar miséria, opressão e guerra não em diferente da de qualquer outra pessoa que, valendo –se de seu caminho de expressão – seja poeta, teatrólogo, cientista ou músico – empresta sua contribuição a uma luta maior em favor da inteligência e contra a desigualdade e o sofrimento desnecessários. Faz parte com o seu compromisso com a vida que, mesmo absolutamente sincero, será sempre posto em dúvida e olhado com desconfiança.

A existência do prazer lúdico em afazeres de tal natureza pode parecer condenável quando, na verdade, é um item inerente a todo processo envolvendo procura e descoberta.

O componente lúdico é a razão principal da animação de qualquer fazer. Ele existe sempre e o prazer da busca, do desenvolvimento do desconhecido e da descoberta, está presente independente da essência da questão abordada, , seja ela a pesquisa para cura de uma doença, a filmagem da fome na Etiópia, a regência de uma orquestra ou um VT sobre carnaval.

O componente lúdico não pode ser julgado a partir de razões de ordem moral, mas explicado pela alegria que há na busca e no encontro de soluções para problemas, sejam de que origem forem.

Sua existência deve ser considerada como um dado permanente, mas não pressupõe felicidade pelo envolvimento e simultâneo afastamento- uma espécie de invulnerabilidade diante das dificuldades alheias – pois, ninguém pode, de sã consciência, estar feliz com desgraças e sofrimento, mas pode experimentar alegria por ter privilégio de ser o instrumento eficaz para denunciá-las.

O caráter lúdico do fazer significa um envolvimento visceral com o trabalho e pode, ao mesmo tempo, ser, por parte do autor, o reconhecimento da grandeza de seu compromisso. O fotógrafo está sempre procurando descobrir o desconhecido, revisitar a vulgaridade, resgatar uma importância não recebida e doar aos outros o resultado de suas investigações.

A fotografia não resulta em detritos, mas em extratos que se tornam, uma vez organizados de forma coerente, indicativos preciosos para o entendimento do permanente enigma que é a vida.

A fotografia assusta porque é capaz de suspender a ação em frações mínimas de tempo e isso incomoda as pessoas, pois podem aparecer de forma não coincidente com a idéia favorável que fazem de si mesmas.

A fotografia pode, também, revelar uma face indesejável do poder, sempre zeloso em mostrar uma segurança inexistente . Ela pode eternizar a ferocidade de seus sicários que procuram parecer suaves e justos, pois até mesmo os carrascos não estão muito convictos de seu papel e tem pudor.

Atribui-se à fotografia, com uma frequência inquietante, algum tipo de compromisso com a beleza, quando na verdade seus vínculos estão no âmbito da força de expressão.

A confusão existente em torno da idéia de beleza, com relação aos resultados de ações expressivas, deve-se, não ao fato dela existir verdadeiramente, mas à força com que somos tocados por uma extraordinariamente bem sucedida organização de linguagem e que resultou adequada às intenções do autor.

Essas emoções não se resumem, sempre, em choques brutais, mas transitam, em razão do assunto tratado, por todo o universo da sensibilidade humana. Variando desde a raiva solidária com os injustiçados ao suave enlevo com a visão de uma paisagem em terras inalcançáveis ou mesmo com a perplexidade diante de ambigüidades deliberadamente postas para nos iludir e animar nossa curiosidade.

A fotografia reflete seu tempo, põe questões e mostra absurdos de uma época. Não dá respostas, mas espelha indagações e, muitas vezes, indícios de mazelas.

Mostra as doenças e não a cura. Doenças incômodas que gostaríamos não existissem, mas, uma vez reveladas, fazem pressupor responsáveis.

A fotografia multiplica-se em referências que, se corretamente avaliados, ganham importância para entender o tempo. Tempo veloz e confuso onde é grande a premência de respostas e, para isso, precisamos nos valer de todos os meios capazes de ampliar o envolvimento do maior número possível de pessoas, comprometendo-as com a busca corajosa de soluções mais compatíveis com uma vida digna.

As questões do mundo, de há muito, deixam de interessar, apenas, aos diretamente nelas enredados. A intolerância e a intransigência são animadas a níveis de igualmente perigosos para todos.

A informação tem que correr livre, capaz de transformar cabeças e atingir as sensibilidades, pondo em dúvida a respeitabilidade das alegorias que detem o poder e que decidem com incompetência.

Devemos atuar, sempre, na esperança de que protelando o risco estaremos ganhando tempo para ver a sensatez reaparecer.

Andrew Halbrooke – Somália 1992


Sem comentários ainda até agora
Publicar um comentário



Publicar um comentário
As linhas e os parágrafos quebram automaticamente, os endereços de e-mail nunca são mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>