matutando sobre o sertão
Novembro 4, 2009, 6:58 pm
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Pois
o Sertão é isso:
uma vasta estrada que sai cá de dentro
e arruma num sem fim de veredas
um não sei quanto de caminhos

E é nada e tudo
saltando dos olhos
de dentro do dentro

Pra sumir e aparecer de novo
em todo lugar

Suspeito que o Sertão seja
eu e todo mundo junto
dentro das linhas desta mesma história…

(Georgio Rios)



Violas de luto

Nelson Jacó, de 78 anos, era tido como mestre da viola de 10 cordas. O mestre violeiro Nelson Jacó, considerado uma das maiores referências da cultura popular de Minas, faleceu aos 78 anos, no início da madrugada desta 6a. feira, em Jequitibá, na Região Central do estado. Autodidata, tem como admiradores o também violeiro Chico Lobo e o multiartista Saulo Laranjeira, que o consideravam embaixador dessa cultura, que luta para se manter viva no interior.

Antes de seguir para o Vale do Jequitinhonha, onde se apresentaria na noite de ontem, Chico Lobo prestou sua última homenagem ao amigo, que considerava um mestre da viola de 10 cordas. “Foi um choque para mim, pois quando nos encontramos, há pouco mais de dois meses, em um festival em Ouro Branco, ele estava forte”, garantiu o músico, que participou do velório e do sepultamento em Jequitibá, no fim da tarde de ontem. Para Chico Lobo, o falecimento de Jacó foi uma perda irreparável para a cultura popular. Eles se conheceram no início da década de 1990 e, desde então, a amizade foi marcada por muito respeito mútuo. “Tínhamos planos de gravar um disco só com Nelson Jacó. Infelizmente, não deu tempo. Mas ele está muito presente em meu trabalho”, lamenta Chico Lobo.

A história de Nelson Jacó se funde com a do folclore mineiro. Natural de Santana de Pirapama, também na Região Central de Minas, e próximo a Jequitibá (considerada a capital mineira do folclore), ele começou cedo a frequentar com seus pais as festas de folia de reis. Seu primeiro instrumento foi a caixa, que marca o ritmo dos foliões, mas seu fascínio o fez trocar de instrumento e aprender sozinho a viola de 10 cordas. Em entrevistas a revistas especializadas, Nelson Jacó afirmava que, para a folia, a viola era a alma sagrada e que nunca deveria ser esquecida. “É um alívio ver o pessoal tocando direitinho com aquela animação que a gente vê que não vai acabar nunca. Vai ser a coisa do passado, do presente e do futuro”, declarou certa vez.

Sua fama ultrapassou as montanhas de Minas e o levou a diversos estados brasileiros e até a Europa. Em 2008, pela primeira vez, o violeiro saiu do país e foi mostrar sua cultura em Portugal, em série de apresentações com Chico Lobo e Pedro Mestre. Lá ele também conheceu Manuel Bento, o mestre da campaniça, instrumento português similar à viola de 10 cordas. “Foi, sem sombra de dúvidas, o show mais importante da minha carreira”, avaliou Chico Lobo. Para Hernano Saturnino, um dos organizadores da Festa do Folclore de Jequitibá, Nelson Jacó era a imagem do folclore mineiro. “Ele divulgou nossa cultura por onde passava”, observou.

(Marcello Castilho Avellar – EM Cultura)



Toda vez que um mestre se encanta, há no ar um cheiro de tristeza e alegria. Para muitos, pode parecer um paradoxo. No entanto, para quem já atravessou “o portal” é plenamente compreensível. Diz uma canção de kleber Albuquerque: “eu acho que estou feliz e triste, tudo que eu tenho cabe na minha mão, e eu te dou de coração, e eu te dou de coração… eu não preciso de nada, o mundo é minha casa, o céu é minha camisa, estrelas vestem meus pés… eu não preciso de nada, estrelas vestem meus pés…”.

Toda vez que o criador chama de volta um mestre ficamos felizes e tristes. A tristeza é sentida pelo corpo material que acredita apenas no bocado palpável da existência. A felicidade é celebrada pela parte extemporânea, divina, sagrada, aquela consciência que enxerga além dos muros da “realidade”. Este “algo” que chamamos de alma, de espírito, e de tantas outras coisas, exulta porque mais um SER viaja de volta à casa do Pai.

A história do planeta está intimamente ligada à sabedoria de seus povos antigos. À devoção daqueles que se curvam e se deitam no colo terra, a verdadeira mãe. É assim aqui no Brasil, é assim na África, ainda é assim com os aborígenes na Áustrália. Em todos os lugares, eles estão lá para dizer como foi, como é; nos legando a matéria-prima que nos faz ser o que somos: a memória…

A memória de um tempo que não foi nosso e que legitima e dá sentido a este que é o nosso tempo. A história do planeta é feita por aqueles que vestem os pés de estrelas, cuja roupa é feita de céu, que trazem nas mãos tudo que precisam e que, no último suspiro, devolvem, de coração, a quem é de direito…

(Dea Trancoso)
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Salve Nelson Jacó, Mestre da simplicidade e grande conhecedor da Cultura Popular e seus encantos!
Agradecemos ao pai celestial por ter nos dado a oportunidade de termos tido entre nós este grande mestre “Seu Nelson Jacó”, homem que nos ensinou, entre outras coisas o valor da simplicidade sendo ele um grande menestrel do conhecimento. Foram cerca de 10 anos de convivência e aprendizado.
Em nossa cultura estamos acostumados a nos entristecermos com a morte, mas tenho aprendido que ela nada mais é do que uma decisão divina, que nos permite encontrar nela mesma um sentido para seguirmos confiantes de que somos pequenos instrumentos do poder divino, a serviço de um poder maior, a mãe terra e a cada um de nós é dada uma missão neste planeta e cabe a nós aceitá-lo e fazer de nosso caminho um jardim para se plantar e colher tudo o que o universo nos permite: paz, harmonia, sabedoria e tantos outros dons que nos foram dados.
Por isso Mestre… obrigada por ter cumprido com tanta clareza e entendimento sua missão de deixar um legado de muito conhecimento para o mundo e principalmente para o Brasil e para nós, admiradores da cultura popular brasileira.
O mais importante é ver como seu legado foi de muita alegria e felicidade.
O CORTEJO
Estavam presentes todos os que um dia puderam sentir sua presença, tão harmoniosa e singela, mas ao mesmo tempo tão grandiosa e suave, como uma criança, que tem nela todo o encanto e muita verdade.
Muitas homenagens foram feitas, na Igreja perdi momentos em que Tia Vavá contava muito feliz: “filha isso aqui é resultado de uma vida de muita amizade e felicidade, cumpadi Nelson foi muito amado por este povo, gente de todo canto, uma digna festa de despedida, os anjos cantam neste momento!”
Em uma celebração de despedida com a presença de cerca de 1000 pessoas, todos com muito carinho, duas folias, outros mestres como Seu Zé Limão, Carlos Felipe, Frei Chico, os violeiros Chico Lobo, Pereira da Viola, Fernando Sodré, o quase filho percussionista Carlinhos Ferreira, Terezinha, esposa que recebeu sempre com tanto carinho tantos admiradores em sua casa, preparando aquele franguinho com caçanção, estava ali, forte e destemida, acompanhando todo o cortejo, que saiu da Igreja de Nossa Senhora do Rosário até o Cemitério da cidade. A filha Ana Elza, que com toda a sua força não cessou de tocar a sua caixa de folia, que há tempos acompanhou seu pai sempre nas festas, quem tem grandes possibilidade de continuar a tradição. Raquel, outra filha, que recém mãe deu ao mestre um neto com um mês de vida. E ainda, o filho Jacozinho, que com o neto de Seu Nelson nas costas carregou o caixão por todo o percurso.
E no momento final preces foram entoadas por Frei Chico e a voz de Pereira da Viola ecoôu nos sete cantos de Jequitibá e para o momento final a filha concede a folia de Bebedouro o último canto, acompanhando firme em sua caixa.


Para quem não conhecia este Mestre:

Nascido em vinte de março de 1931, Seu Nelson Jacó, natural de Santana do Pirapama-MG, tendo vivido a maior parte de sua vida em Jequitibá-MG. Desde criança Seu Nelson conviveu bem de perto com as tradicionais folias. Só folias o mestre conhecia e executava 9, diferentes, algo pouco provável em outros mestres, saber tantas folias como ele.

Foi por influência do seu pai que decidiu aprender a tocar viola. Ele afirma que desde pequeno via o pai tocar e achava bonito. De tanto admirar o som da viola, Seu Nelson, ainda criança, pediu ao pai para lhe ensinar. Mesmo com a contribuição do pai Nelson Jacó foi praticamente autodidata, pois o pai apenas lhe ensinava as afinações e ele fazia o resto sozinho. Segundo o mestre “a viola é um instrumento mais macio, que abrange vários gêneros, dá pra fazer de tudo na viola”, por isso a preferência por esse instrumento. Ele também lembra a importância de tal instrumento, já que existem várias manifestações religiosas que dependem da viola, como a própria folia.

Seu Nelson Jacó tocava em seis afinações diferentes, mas as que ele mais utilizava eram a natural e a oitavada. Suas composições eram muito influenciadas pela religiosidade. Seu Nelson, sempre que podia, agradecia e oferecia alguns versos à Nossa Senhora, a Jesus Cristo, ao Espírito Santo e a outros Santos. Ele também compôs muitas músicas por encomenda. Além das folias Seu Nelson também era possuidor do conhecimento de outras tradições, como por exemplo, o Fim de Capina, cantos de trabalho que eram executados no trabalho em lavoura.
– Geovana Jardim – Diretora e Coordenadora de Produção
55 (31)9243-2817 – geovana@jardimproducoes.com.br

Jardim Produções – 55 (31) 3486-7848 – 9613-0255
myspace.com/jardimproducoes





Arturos e o Rosário – 2009
Outubro 21, 2009, 2:01 am
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Os Arturos constituem um agrupamento familiar de negros que habitam uma propriedade particular em terras no município de Contagem-MG, no local denominado Domingos Pereira. Caracterizam-se basicamente pela manutenção da cultura negra, recebida dos ancestrais e conservada na experiência do sagrado: são as festas religiosas que fazem do grupo um universo à parte, quando os Arturos se transmutam em filhos do Rosário.

A origem da comunidade é o negro Arthur Camilo Silvério e sua esposa, Carmelinda Maria da Silva – elos primeiros da grande família. É através de Arthur (pai) que se formam os Arturos (descendentes) e a marca do nome atesta a força da ancestralidade: filhos, netos e bisnetos de Arthur são hoje ARTUROS, família mantida e alimentada pela raiz inicial.

Remonta há cerca de um século a memória da comunidade negra dos ARTUROS no território de Contagem. A importância desse grupo étnico, no contexto cultural, extrapolou nossas fronteiras ganhando reconhecimento internancional.

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Este ano, ao contrário dos outros, lá estive apenas no domingo, e por pouco tempo.  Além das fotos fiz um vídeo-experimental usando uma trilha do filme “The Power of One”, que mostra bem o clima local. O link está no final deste post.

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Veja o vídeo com outras fotos no

http://www.youtube.com/watch?v=OriwE2_ON7s



Reflexões
Outubro 12, 2009, 6:32 pm
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Outubro 5, 2009, 1:33 am
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“A arte é o vazio que a gente entendeu.”

(Clarice Lispector)




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8 em 80

O Mercado Central de Belo Horizonte completa, em setembro de 2009, 80 anos de história. Em homenagem ao aniversário, os fotógrafos Ícaro Moreno, Gui Machala e André Tanure produziram um ensaio no qual oito importantes homens, símbolos de todos os trabalhadores, foram retratados em sua rotina. O ensaio capta a profissão de fé de cada um desses senhores que ajudaram a contruir esse rico patrimônio mineiro.

O ensaio “8 em 80” está em esposição durante o mes de setembro no Mercado Central/BH.
Visite também o site e veja ensaio completo de cada personagem:

www.8em80.com

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Estive lá e gostei muito da proposta de “encontrar” as fotos suspensas nos corredores do mercado,
próximas às barracas de cada personagem. De repente, naquele redemoinho, eis que surge
uma imagem que nos obriga a parar, fixar os olhos no alto e, em seguida uma busca ao fotografado…
É inevitável. Todas puxam e nos remetem a uma história que a gente quer conhecer.  Imperdível!
Parabéns aos três grandes amigos, profissionais de primeira que eu aplaudo de pé!

Alguns registros da abertura, hoje:

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Setembro 3, 2009, 3:32 am
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Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostrar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.

(Manoel de Barros,
O Livro das Ignorãças)




Agosto 29, 2009, 2:37 am
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“Deus, estou te ouvindo,
mas não sei como pedir licença
para tudo o que vivi.

Sou apenas o que posso perder,
o segredo que nasce do atrito
entre o penhasco e as ondas.

Avançar uma página
é retornar ao princípio.”

(Carpinejar)



Festa do Rosário – Serro/MG
Agosto 25, 2009, 11:18 pm
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A principal manifestação folclórico-religiosa serrana, que está para completar 300 anos, pode ser apreciada por ocasião da Festa do Rosário, no primeiro final de semana de julho. É formada principalmente pelos grupos de Caboclos, Catopês, Marujos, pelo Reinado e pela “Caixa de Assovio”. Retrata ricas tradições, conservando elementos das três principais raças que contribuíram para a formação do povo brasileiro e serrano. Este sincretismo não esconde, no entanto, a capacidade dos negros de continuarem cultuando suas tradições, através da incorporação da divindade dos brancos, a Nossa Senhora do Rosário.

No Reinado do Rosário, o Rei, a Rainha, os dois Juízes e as duas Juízas da festa, acompanhados do cortejo real (mucamas e cavalheiros), desfilam solenemente pelas ruas sob guarda-chuvas, o que segundo alguns, representam “reminiscências dos para-sóis como símbolos realengos entre os povos orientais, desde a remota Assíria”.

Os catopês (origem na palavra “candomblê”) despertam a curiosidade por causa de suas vestes: são cobertos de plumas de emas, peito enfeitado com espelhos e colares, com capas multicores às costas. Tocam tambores, tamborins, xique-xiques e reco-recos. Atualmente, desfilam na festa dois grupos de catopês: o do Serro e o da localidade do Baú, do distrito de Milho Verde.

Já os marujos, se trajam de uniformes nas cores branca e azul e tocam violas, violões, cavaquinhos, bandolins, xique-xiques, pandeiros e caixas de couro.

E, finalmente, os caboclos, de flechas em punho, com capacetes e saiotes enfeitados com penas coloridas, pulseiras, colares, peseiras e pinturas no rosto.

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veja mais em:

http://consueloabreu.multiply.com/photos



Sebastião Salgado – Genesis
Agosto 25, 2009, 10:46 pm
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Entrevista > >Sebastião Salgado > > Fotógrafo, 65 anos

23/08/2009 – 00h00 (Outros – Outros)

por Vitor Lopes
vlopes@redegazeta.com.br

“A nossa urbanização é uma expulsão”

Após semanas de imersão na densa Floresta Amazônica para um trabalho que busca mapear as partes puras do planeta, um dos maiores fotojornalistas do mundo está relaxado. No momento, a única aparente preocupação de Sebastião Salgado é verificar como serão expostos os quadros que o filho Rodrigo pintou e que ele pretende apresentar aos amigos durante o tempo de rápidas férias na sua casa de frente para o mar, em Vitória. Quando percebe que uma das molduras está com problema, chama a esposa e braço direito dos seus projetos, Lélia Wanick. “Deve ter sido durante a viagem de Paris para cá. Mas a gente resolve”, diz Lélia.

Nas quase três horas de conversa com A GAZETA, dias antes de receber o prêmio D. Luís Gonzaga Fernandes do governo do Estado, em cerimônia no Palácio Anchieta, na última quinta, pelos trabalhos de cunho humano e ambiental que realiza, Salgado detalhou suas aventuras pelo globo, comentou sobre política ecológica e causou surpresa ao afirmar que fotografia digital é melhor que analógica. “Faz um ano que eu fotografo com câmera digital”, revelou.

foto: Sebastião Salgado
Peninsula Kamchatka Galeria de Fotos

Você esteve na Amazônia semana passada. No que estava trabalhando?
No “Genesis”, um projeto em que já estou há cinco anos procurando as partes mais puras do planeta. Estive lá no mês de março, quando passei 40 dias com uma tribo de índios, ao norte do Rio Amazonas, chamada Zo?é. Tenho viajado o mundo inteiro buscando essas partes mais puras para o projeto em que fotografo a paisagem e, pela primeira vez, os outros animais. Porque até então eu só fotografei o animal humano. Estou fotografando os seres humanos que nós fomos até alguns milhares de anos atrás.

Quando você passou com “Genesis” por Vitória, em 2006, muitos acreditaram que já era o final do projeto.
Não. Ali foi o começo. Aqui em Vitória não tinha ainda nenhuma foto de ser humano. Eu tinha feito Galápagos, o Virunga, que é um parque nacional entre o Congo, Uganda e Ruanda, a Península Valdes, na Argentina… Hoje estou com 22 histórias feitas. Estou muito próximo do fim.

O que essas pessoas que vivem em estado puro têm a mostrar para nós? O que você pretende mostrar?
O “Genesis” nasceu em Aimorés (MG), com a Lélia, minha esposa. Criamos o Instituto Terra quando passamos a ter um contato muito forte com a natureza. Então, é praticamente como meu último projeto como fotógrafo. Estou com 65 anos. Concebi esse trabalho como uma homenagem ao planeta. Decidimos identificar as partes puras do planeta, no sentido de ajudar a preservá-las.

Você já tinha feito algum trabalho nesse sentido?
É a primeira vez. O que é interessante nessa questão dos grupos é que, na realidade, descobrimos muito pouca coisa nesses milênios. Os Zo?és têm uma ideia perfeita da degradação do ambiente deles. Eles exploram um pedaço de terra um período e abandonam, porque ela tem uma queda de produtividade. Quando voltam àquele ponto, já se passaram 100 anos. Eles conhecem perfeitamente o antibiótico. Se eles têm uma ferida, sabem como tratar. Eles têm remédio para tudo. Quando você vai trabalhar em um grupo desses descobre que o que é essencial para eles é essencial para você.

Eles têm consciência de que o resto do mundo estaria destruindo a natureza?
Não. Depende do grupo. Para os Zo?és, o planeta é constituído de 275 zo?és e alguns brancos que aparecem por lá. A Lélia estava tentando explicar para os índios o que é um avião, que é muito grande. Ela disse: “O avião é mais ou menos desse comprimento e dentro você pode colocar 300 pessoas”. E eles perguntaram: “Como trezentas pessoas? Nós só somos 275″. Pois é, mas tem muito mais gente na cidades. Para eles, chegar nesse conceito de 300 pessoas é muito difícil.

Como é para você, um homem urbano, viver esse conflito de tempo, identidade e sociedade?
É muito interessante. Eu tenho uma oportunidade de frequentar cortes representativos de sociedades que estão em várias idades. Eu estava trabalhando com um grupo em Sumatra, e também os bushmen, no Botswana, que é um grupo de caçadores e coletores que vivem exatamente como viviam há cinco mil anos.

É uma viagem no tempo…
Uma viagem maravilhosa. É quase uma fotografia antropológica. Posso dizer que tem horas que faço uma viagem no tempo, no Velho Testamento. Você vai vendo as diferenças no que diz respeito aos humanos, aos outros animais. Comecei o “Genesis” na Ilhas Galápagos porque li um pouco a “Teoria da Evolução das Espécies”, do Charles Darwin. Fui para lá para tentar compreender o que ele compreendeu. Eu ia de barco de ilha em ilha. As tartarugas galápagos evoluíram de maneira diferente de uma ilha para outra. Para mim está sendo uma escola fabulosa.

Quando você chega a uma comunidade, qual é o tempo que você tem de contato para começar a fotografar?
Isso não tem regra. Pode ser imediato, pode ter um tempo de discussão e de explicação. Isso para os humanos. Para os outros animais, às vezes você precisa de tempo. Lembro uma tartaruga gigante em Galápagos, na Ilha Isabela. Eu tive que aprender a fotografá-la. Posso tirar uma foto e ir embora. Mas, para eu fazer uma foto direitinho, para eu poder fotografar esse animal de perto, tenho que ter uma aproximação. Ele tem que me autorizar a entrar no território dele. Tive de encontrar uma forma para poder fotografar as tartarugas, e a única forma foi me colando de joelhos, na altura dela. Ela veio se aproximando de mim e eu comecei a andar devagarinho para trás. Ela compreendeu que eu estava respeitando o território dela. A partir daí ela veio direto, se aproximou, começou a me olhar. Eu respeitei a distância, a dignidade e pude trabalhar sem problemas. Quando isso acontece, você começa a ver que contaram uma mentira imensa, que nós somos o único animal racional. Todos são racionais dentro da racionalidade deles. E você descobre que está num planeta integrado, autodependente. E nós, como animal que dominou, não vemos, não respeitamos. Nós destruímos o habitat, dominamos, executamos. A nossa urbanização é uma expulsão.

Você acha que conseguiríamos mudar isso com políticas públicas? Isso é utópico?
De forma alguma. Quando começamos nosso projeto ambiental na região do Vale do Rio Doce, ninguém acreditava. Os fazendeiros sentavam no banco para rir da gente, para gozar. O Brasil vai mudando. A nova geração vai obrigando a mudar.

Por que não é fácil mudar?
Porque ecologia nunca foi política e nunca foi considerada dentro do orçamento de nada, de ninguém. A mata, até então, era considerada lugar a evitar. A mata foi um lugar do qual as pessoas aprenderam a ter medo. Até pouquíssimos anos, desenvolvimento e progresso era destruir a floresta.

Você disse que algumas etapas do “Genesis” vão para a internet. Como você lida com esse ambiente?
É complicado para mim. Te juro. Voltando desde a base… Faz um ano que eu fotografo com câmera digital… Até então era com negativo. Agora, minha imagem passa a ser um conceito, que está ali dentro transformado em ondas magnéticas. Eu tenho um telefone novo com internet. Eu fui mexendo, fui no Google, coloquei meu nome e cliquei em imagens. Minhas fotos entraram dentro do meu telefone. Pronto! Eu não sei fazer outra vez, mas fui brincando até chegar lá. Isso é fascinante, mas é muito difícil para uma pessoa que trabalhou sempre com um produto resultado da química, que é o filme, passar a usar um produto resultado da física.

O que fez você passar a usar tecnologia digital?
O mundo depois do 11 de Setembro virou um drama para os fotógrafos. Nós usávamos filmes e tínhamos os raios-x nos aeroportos. Eu vinha de Sumatra no ano passado, no mês de abril. Passamos por sete controles de aeroportos com 600 rolos de filme. Tive problemas em vários deles. Não adiantava mostrar para eles as cartas da Kodak, dos governos… Eu reaprendi a fotografia. A digital me facilitou a vida. Estou usando uma Canon EOS-1Ds Mark III, que é fabulosa.

É um susto para muita gente ver você falando que a digital é melhor…
É melhor mesmo. Os químicos não existem mais. Tive que fazer os bons químicos até um ano e pouco atrás. Para conseguirmos papel para as cópias de leitura, tínhamos que trazer de Tóquio! Os filmes foram caindo de qualidade. E a qualidade que eu tinha em um 35mm anos atrás eu não tenho mais no médio formato agora.

Com a popularização das digitais, mudou a relação da sociedade com a imagem?
Nada. Absolutamente nada. O número de fotógrafos não aumentou, não melhorou e não piorou. Você só mudou a base, exclusivamente a base. O problema é de sensibilidade e identificação com a profissão, de saber se é fotógrafo ou não.

A câmera digital altera a questão da memória?
Acho que não. A fotografia, na realidade, é a memória da sociedade. São cortes representativos, são momentos que você faz da sociedade. É a verdadeira linguagem universal. A maneira de escrever cada um tem a sua, com uma vantagem para a fotografia. Ela não precisa de tradução. É realmente uma linguagem fabulosa.

Link:

http://gazetaonline.globo.com/index.php?id=/local/a_gazeta/materia.php&cd_matia=526209